30/outubro/2008 - quinta-feira
Sorte ou azahar?
Ainda com a cabeça girando no vuco-vuco financeiro mundial, o produtor de citros vê seu pomar agradecer as chuvas das últimas duas semanas. As árvores branquearam com as flores e perfumaram o ambiente. É possível ser feliz sendo citricultor! A contemplação deveria fazer parte dos valores e direitos inalienáveis de todo produtor rural, mas já não é para muitos a oportunidade de contemplar um campo de laranjeiras vigorosas, com folhagem verde-escuro, manchadas de frutos amarelos e pintadas de recendentes flores brancas! É preciso esquecer que as mesmas árvores estão ainda carregadas de laranja porque a colheita está lenta e para se acelerar pede aumento de preço; que o valor da venda não cobre o custo; que grande florada pode ser grande safra, e grande safra, eventualmente, pequeno preço; e que nem com pequeno preço os consumidores europeu e americano estão comprando mais suco de laranja. É um momento paradoxal! É o momento do “azahar”…é, no mínimo, irônico este nome espanhol da flor de cítricos.
Um recente estudo realizado pelo CEPEA/USP mostrou que três dos principais produtos agrícolas do Estado de São Paulo perderam valor, em reais, de janeiro a agosto deste ano: álcool (10,5%), açúcar (16,6%) e suco de laranja (24,9%). Aqui pra nós…se recuperarmos o debate do ano passado, sem desejar o mal dos outros, se a cana não enfrentasse as dificuldades de hoje, estaria dado o gancho para citricultores abandonarem de vez a atividade. Ainda mais agora que a ciência aplicada permitirá a extração de mais um subproduto da cana: o diesel da cana.
Thomas Spreen, o conhecido americano, autoridade em citricultura, coordenou encontro com aproximadamente 50 membros da cadeia citrícola da Flórida para avaliar fraquezas, forças, oportunidades e ameaças do setor. Uma de suas referências foi sobre a organização do setor e a força que ela lhe proporciona. Sem as sólidas instituições como o Departamento de Citricultura e o Florida Citrus Mutual, eles não teriam conseguido, por exemplo, reagir ao greening como vêm fazendo. Interessante observar a opinião do professor Spreen sobre nós: “O Brasil não tem esse tipo de organizações!” Tão ricas, de fato, não temos. Nem tão influentes, também. Mas reconheçamos que as que temos são exemplares e fazem um esforço de Hércules para suster a citricultura. O Fundecitrus e as Estações Experimentais de Cordeirópolis e Bebedouro, entre outras, são nossos esteios. Mas falta-nos quem assuma a coordenação da cadeia produtiva amplamente e mostre nossa força em âmbito político. Especialmente, no momento, para cobrar das esferas governamentais, além da necessária legislação instrumental que nos dão para combater o greening, a alocação de verbas para a citricultura. O impacto econômico resultante do combate à doença deve ser grande, e o engajamento do produtor só será eficaz na medida em que ele não for obrigado a amargar o abandono e o prejuízo solitário da erradicação. O país se beneficia da vitória, então, ainda que a conjuntura não nos seja favorável para pedir, que ajude a carregar seus custos de forma mais efetiva.
Plágio é crime e está previsto no artigo 184 do código penal. Conheça a Lei 9610.












