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23/abril/2012 - segunda-feira

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BORRACHA NATURAL – Fernando Bortolin

China e petróleo começam a definir os rumos da borracha natural

Três premissas básicas devem ser observadas no atual jogo da formação de preços da borracha: o movimento de reposição de estoques de borracha natural pelos chineses, o comportamento dos preços internacionais do petróleo e os desdobramentos da crise na Europa – ao mesmo tempo que uma boa leitura dos indicadores da economia norte-americana.

É evidente que a formação de preço da borracha natural e da borracha sintética passa por uma dezena de outros indicadores, mas as três premissas básicas representam o centro de polarização que domina os players com posições em mercados futuros ao redor do mundo hoje.

Há quatro semanas os chineses estão apenas prospectando terrenos nos mercados abastecedores da Ásia. Eles estão e são avessos aos aumentos já consolidados sobre o preço da borracha natural, entre janeiro e março deste ano, e estão à espera de um movimento de queda do insumo.

A prioridade dos chineses foi a de ir usando parte desses estoques ‘reguladores’ e ao mesmo tempo apostando num movimento de queda da commoditie ao longo do tempo.

Essa ‘travada’ dos chineses tornou o mercado futuro da borracha natural sem uma tendência definida, com os preços se pautando por fatos esporádicos como uma Índia que está com déficit de borracha, uma Rússia que está com apetite de compra e por movimentos marginais como a tentativa do governo tailandês de formar um estoque regulador interno, a fim de manter a pressão de alta sobre a commoditie – numa resposta ao posicionamento conservador dos chineses, por exemplo.

Essa é uma queda de braço importante, que coloca os principais jogadores um diante do outro: de um lado os produtores ancorados na Associação dos Países Produtores de Borracha Natural (ANRPC) e de outro os principais consumidores globais do momento: China e Índia, apenas para ficar na Ásia.

A quebra desse ritual bastante concentrado no Sudeste da Ásia tem como adventos a crise na Europa e a falta de indicadores mais substanciais que apontem para um crescimento mais sólido da economia norte-americana.

E é exatamente desse ponto que surge um outro fato polarizador para os preços da borracha natural: Europa em crise e Estados Unidos andando de lado – no jargão do mercado financeiro – fazem com que os preços do petróleo, base para a produção da borracha sintética – o arquiinimigo da borracha natural – apontem para baixo.

Preço do petróleo em ritmo de queda bate de frente com a tentativa de manutenção de um preço da borracha natural em alta e essa questão é que vem pautando as mesas de negócios na série das últimas duas semanas. E, veja que interessante: se o preço do petróleo ceder mais, consolidará a estratégia dos chineses por um preço de borracha natural mais em conta. Com os chineses repondo estoques, a liquidez dos futuros de borracha natural ganham força e, ai sim, pode-se ter uma formação de preços, bem como uma tendência mais plausível para os preços do insumo nos mercados futuros.

Economia é assim. Os mercados são vasos comunicantes e um fato disseminador aqui bate ali e força uma recomposição de métricas, numa transição que está acontecendo agora e deve se tornar mais clara desde que os preços do petróleo continuem em ritmo de baixa. Pode-se dizer hoje que o ritmo de formação de preços do petróleo é muito mais sintomático para a formação de preços da borracha natural que os estoques represados dos chineses.

Dados do S&P GSCI, por exemplo, mostram que o preço do petróleo cedeu 1,08% na série dos últimos 30 dias terminados em 22 de abril. Dentro do índice de commodities agrícolas, que também se compõe com o preço da borracha natural, a queda foi maior, de 4,27%.

Na última sexta-feira, 20 de abril, os futuros de borracha da Bolsa de Tóquio apontaram um recuo de 0,38% para os contratos de setembro, os mais líquidos, embora o preço posto para setembro esteja 6,14% acima do que está valendo a borracha natural para os contratos de abril.

Enquanto a oferta e a demanda fazem o jogo nos pregões ao redor do mundo, no mundo real o impacto dos preços tem feito as margens das empresas ruir e o bolso do consumidor gritar.

Durante a PneuShow Recaufair/Expobor, feiras realizadas entre os dias 11 e 13 de abril, no Expo Center Norte, em São Paulo, foi possível medir, diretamente entre os usuários de borracha natural e sintética, o peso e a realidade do momento que estamos vivendo.

Em síntese, a borracha natural está sendo adquirida pelos setores de recapagem e reforma de pneus por cerca de 25% menos que o preço da borracha sintética. Na composição dos impactos dos dois insumos sobre a composição do preço final ao consumidor, o custo subiu entre 10% e 15% entre os empresários ouvidos no evento.

E para surpresa geral, a crítica não é tanto em relação ao aumento dos preços da borracha natural, mas sim, para os preços praticados pela borracha sintética, em que pese o fato de uma banda de rodagem usar 50% de borracha natural e 50% de borracha sintética em sua composição, disseram os empresários.

E de quanto foi o aumento de preços dos pneus no mesmo período? Representantes de fábricas presentes às feiras relataram aumentos médios de 4,5% ao longo de janeiro, fevereiro e março, mas com pico de até 12%, tendo como vilão a borracha sintética, assim como a principal crítica dos reformadores de pneus.

E como foram repassados esses aumentos? Alguns cortaram margens de lucro, a fim de manter o preço competitivo no mercado – que ainda conta com o adicional da forte participação dos produtos importados -, mas os grandes players informaram ter repassado 100% do aumento de custo ao consumidor.

Em que pese tais questões, dois fatores podem servir como uma luz no fim do túnel para a indústria nacional. Um tem a ver com o aumento futuro da oferta de borracha sintética e outro com um novo insumo que pode agregar valor ao produto final.

No campo da oferta, vale ficar atento à nova fábrica de butadieno que a Braskem deve inaugurar em junho próximo, no Polo Petroquímico de Triunfo (RS). A nova planta, um investimento de R$ 300 milhões, vai agregar 100 mil toneladas adicionais de butadieno por ano no mercado brasileiro, quase que dobrando a atual capacidade de produção do insumo da empresa, que hoje é de 105 mil toneladas.

Outra notícia boa, dessa vez para quem tem no cerne de seu negócio o chamado ‘produto verde’, vale a pena ficar antenado ao novo composto de borracha à base de cana-de-açúcar, lançado com exclusividade pela Lanxess, com o nome de batismo de Keltan ECO.

A Brasken será a fornecedora do etileno derivado de cana-de-açúcar para a Lanxess, produto que desde novembro do ano passado tem seu abastecimento realizado através de gasoduto, representando a primeira produção mundial de bio-base de borracha EPDM.

É bom que a indústria brasileira encarne de corpo e alma o conceito de produtos verdes, uma coisa que não se atém à moda da sustentabilidade e do meio ambiente, mas que será o eixo central sobre o qual a indústria global de borracha e pneus fundamentará os seus negócios nos próximos anos.

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