21/janeiro/2011 - sexta-feira
Coluna Semanal
A bem amada citricultura
Na semana em que o licor “jenipapístico” do saudoso prefeito Odorico Paraguaçu, o Bem Amado, de Dias Gomes, volta à mídia, assuntos “laranjísticos” é que viveram dias de estrelismo explícito e frequentaram as primeiras páginas do maior jornal econômico do país, por duas vezes consecutivas, além das páginas internas de outros grandes periódicos nacionais.
“Deixando os entretanto e partindo pros finalmente”, os textos sugeriam cautela aos citricultores do mundo. A China pode ser o Zeca Diabo encarregado de inaugurar o cemitério de Sucupira, ou de Sucucítrica, a cidade dos laranjeiros. E a vítima pode ser… você!
A matéria já tinha sido tratada em jornais americanos. Lá, como cá, houve quem moderasse a repercussão do vaticínio do chinês que disse que até 2015 a China vai dominar a indústria mundial de citros. Para segurar os batimentos cardíacos dos produtores e evitar uma reação exagerada, foram lembradas as dificuldades que os chineses enfrentam no que toca à disponibilidade de água, terra e alimentos de primeira necessidade; a sua, ainda, pequena participação no mercado mundial de suco de laranja; e o fato de que, antes de exportarem a fruta e seus derivados, podem ter sido os exportadores do HLB – huanglongbing – greening, este sim, a grande ameaça à citricultura da Flórida, de São Paulo e onde mais houver pomares de citros.
Na disputa pela primazia entre as economias do mundo, a China sempre ataca com seus números assutadores, tentando intimidar os adversários, imobilizá-los ou fazê-los correr da raia.
Em que pese a capacidade de realização dos orientais, não se podem esquecer o tempo e os custos de se criar a primeira e a segunda maiores citriculturas do mundo além, o mais difícil, de mantê-las nesta posição. A mensagem mais alvissareira, porém, me pareceu a do Presidente da CitrusBr, que aponta para um desejo de todos os citricultores do Brasil: “(…) o futuro do consumo está nos países emergentes, o Brasil está entre eles”. Sem querer posar de ingênuo, quem sabe vivenciamos o momento em que a indústria resolve investir ativamente na ampliação do mercado interno de suco de laranja.
Falando da ameaça de nome chinês, Huanglongbing, o último relatório da Secretaria de Agricultura de SP, mostra redução na quantidade de plantas eliminadas por causa da doença, o que se atribui à sua menor incidência nos talhões inspecionados. Na Flórida, que ainda contabiliza o impacto do frio sobre sua produção de laranja, o greening continua sendo uma séria ameaça, em especial devido aos pomares abandonados que servem de foco, também, para o cancro cítrico. No período anterior a 2008, o boom imobiliário expulsou a citricultura substituindo-a por empreendimentos na construção civil. Com a crise, nem edifícios, nem citricultura. Terras onerosas e pomares abandonados. Ameaça para os vizinhos que se mantiveram na cultura agrícola.
Em véspera de negociação de preços, o “esquenta” começou bem! As sugestões de cautela com a euforia são bem vindas, mas as perspectivas de preço são muito boas. De imediato, não tem laranja! Ponto pro preço alto. Boatos de começo de oferecimento, pela indústria, do mesmo preço pago em 2010 soam como ponto de partida, não de chegada! Na Europa, em entrevista a uma publicação francesa especializada, o responsável pelo abastecimento de uma grande engarrafadora lamenta que os preços mundiais do suco concentrado de laranja sofreram um primeiro aumento brutal de preços no outono de 2009, no hemisfério norte, passando de US$1 mil a US$1,5 a tonelada. Na primavera de 2010 o suco cruzou a barreira dos US2 mil e a de US$2,5 no verão. A ascensão não parece ter terminado, em sua opinião: “Certos fornecedores antecipam uma má floração no Brasil, e anunciam-nos US$2,6 a US$2,8 mil a tonelada!” A preocupação aumenta quando se avaliam outros sucos competidores, entre os mais vendidos no mercado. O suco de maçã, por exemplo, é vendido a um preço 2 vezes mais caro que antes do verão europeu. “A maçã desempenha um papel de produto de substituição: os consumidores procuram-na quando a laranja é cara e as engarrafadoras aumentam seu peso nos mix de suco. Estas adaptações perderam uma boa parte do seu interesse”, observa o diretor geral da Refresco France. Ponto pra nossa laranja.
Assim, “tomemos os providenciamentos necessários” para manter a sanidade e produtividade dos bem amados pomares e aguardemos, “com a alma lavada e enxaguada”, os próximos e emocionantes capítulos desta novela citricolística, sem preocupação imediata com a sempre trepitande e dinamitosa ameaça chinesa e fé em “meu padim, pade Ciço” que há de ser bom o preço da caixa de laranja neste 2011.
Plágio é crime e está previsto no artigo 184 do código penal. Conheça a Lei 9610.












