12/abril/2011 - terça-feira
Coluna Semanal
O mundo dá voltas
Lembro-me de artigos escritos a alguns meses atrás em que o fator de suporte principal ao mercado de soja, resumia-se a demanda. Demanda esta que, embora subdivisível em suas faces real e especulativa, concentrava-se notadamente no insaciável ritmo de compras por parte do da China, nada menos que o maior importador mundial, responsável por 58% do trade mundial da oleaginosa. Passado algum tempo é justamente o mesmo país das incríveis muralhas que gera desconforto ao mercado de soja neste momento.
A primeira resposta que vem a mente dos agentes: políticas contracionistas adotadas até então e, passíveis de intensificação nos próximos meses, podem retrair o ritmo de expansão geral da economia e, com isso a demanda por commodities. De fato este ponto deve ser considerado no momento porém, já abordamos extensivamente o fato de que, o impacto destas sobre a demanda alimentar tenderia a ser limitado, dada a alteração das características de consumo das populações emergentes nos últimos anos. No entanto, embora o consumo em si tenda a permanecer sólido, configura-se um quadro interno problemático na China, combinando dois aspectos cruciais: estoques e intervenção oficial. Em primeira instância, processadores do país detêm “volumes significativos de estoques” (não necessariamente internalizados) adquiridos especialmente dos EUA nos últimos meses como forma de proteção frente a choques de oferta na safra sul-americana. Em segunda instância, o mercado encontra dificuldade para o repasse de preços, com o governo trabalhando através da venda de estoques oficiais de soja e derivados juntamente ao controle dos reajustes de preços na tentativa de conter a inflação. O quadro culmina em margens negativas no país e a subutilização da capacidade de processamento. Com uma grande safra confirmando-se na América do Sul, nada mais coerente que uma postura mais cautelosa forçando a acomodação da euforia no mercado da soja. O USDA já reduzira a projeção de demanda norte-americana na última semana e, embora até o momento a estimativa de estoque tenha se mantido, é coerente antecipar estoques finais superiores as estimativas atuais.
Com a demanda fraca a uma grande safra na América do Sul, é razoável a dificuldade de suporte aos futuros safra velha em Chicago. Digo safra velha, pois o mercado da soja realmente convive com um dilema no momento: enquanto os vencimentos safra velha são pressionados pelo quadro acima exposto, os futuros referentes à safra nova norte-americana trabalham na tentativa de sustentar os atuais patamares. O quadro intensificara-se nos últimos dias, com os mesmos trabalhando com spread (diferença) mínima, fato raro ao mercado da soja.
O suporte intrínseco aos contratos safra nova origina-se no gráfico abaixo.

Na análise da relação soja/milho, observa-se que o milho esta literalmente nocauteando a soja na briga por área de cultivo nos EUA nas últimas semanas, sinalizando que, diante da demanda robusta, o aumento de 5% na área de cultivo não soluciona o problema do cereal na próxima temporada. De fato, os produtores norte-americanos farão o possível para plantar milho e beneficiar-se de um dos maiores diferenciais da história entre receita bruta milho e soja nos campos do cinturão produtor do país. Neste caso, emerge um fator natural de suporte, ou seja, a área de cultivo com a oleaginosa tenderia a reduzir-se de forma mais significativa ao reportado pelo USDA no último dia 31 e, com isso, dificultando a reposição dos estoques norte-americanos na próxima temporada. Inclusive, na análise histórica, em seis dos últimos sete anos a área de cultivo com a oleaginosa fora inferior no dado final de junho em relação a estimativa inicial em março. Há apenas um detalhe neste quadro: o tempo. Os níveis de umidade presentes nos solos da região norte dos EUA, combinado a temperaturas inferiores a média, geram a expectativa de que a expansão da área de cultivo com o cereal economicamente previsível possa não ocorrer. Espero que você tenha algum amigo meteorologista, ele será útil nas próximas semanas/meses. Bom, de fato a incerteza persistirá à frente, mas até o momento a cautela comercial é evidente quanto ao risco de oferta na próxima temporada, basta a simples análise dos spreads entre os contratos safra nova 2011/12 na CBOT, referenciando carrego mínimo.
Bom senhores, em meio ao quadro acima é coerente assumir que, altas expressivas nos futuros CBOT à frente dependerão de um fator de suporte aos vencimentos safra nova norte-americana. No momento, diante de um quadro aversivo referenciado pelos mercados financeiros em geral, o risco intrínseco à oferta futura não esta sendo suficiente para alimentar o fluxo especulativo bem como atrair o posicionamento comercial.
Plágio é crime e está previsto no artigo 184 do código penal. Conheça a Lei 9610.












