09/fevereiro/2010 - terça-feira
Coluna Semanal
Etanol – dois passes de mágica?
A primeira semana de fevereiro foi marcada por dois fatos de grande importância para o futuro do comércio de etanol combustível.
Logo na segunda-feira, dia 1º, a Cosan, maior produtora e exportadora de açúcar e álcool do mundo anunciou a celebração de um memorando de entendimentos com a Shell, gigante anglo-holandesa da área de petróleo e derivados, a mais globalizada de todas as indústrias do setor petrolífero. Esta “carta de intenções”, para gerar efeitos dentro de 180 dias, é dada pelo mercado como negócio fechado. Isto porque ambas as empresas vem estudando tal associação já há bastante tempo e pela responsabilidade que tem junto ao mercado, inclusive acionário, não viriam a público falar de algo que ainda tivesse maiores obstáculos a serem superados. Do ponto de vista prático esta foi sem dúvida a grande notícia, não da semana, mas da história recente do etanol. Isto porque até hoje a grande dificuldade encontrada pelo etanol combustível para vislumbrar efetivamente a possibilidade de vir a se tornar um dia uma commodity internacional era a maneira reticente com que a indústria de petróleo abordava sua relação com o setor produtivo do etanol.

O caminho do etanol está aberto
Detalhes desta união já são de conhecimento de todos mas o que importa para nós neste espaço é abordar o lado conceitual. Excetuando-se um movimento, interrompido, da americana Chevron, que chegou a colocar no Caribe equipamentos para desidratação de etanol, da BP britânica que investe em um projeto greenfield no Brasil, e muita intenção da Petrobras de entrar neste mercado, pouco foi feito para a aproximação dos dois setores. Até agora o único fato concreto que tínhamos foi a aquisição, há um ano atrás, pela mesma Cosan, das operações no Brasil da Esso, subsidiária brasileira da gigante americana Exxon. Agora, em mais um movimento pioneiro, o etanol da Cosan vai buscar o petróleo da Shell e criar uma empresa modelo na unificação da produção e comércio de açúcar, álcool, cogeração de energia a partir da biomassa indo ao extremo da distribuição de gasolina, etanol e sua mistura. Os desdobramentos da força desta sociedade ainda são difíceis de se avaliar mas ninguém duvida que terão forte impacto no futuro do etanol e da estrutura de ambos os setores que estas empresas representam.
O segundo fato ocorrido, na quarta-feira 3 de fevereiro, foi o anúncio pela Agência Americana de Proteção Ambiental (EPA) de ter classificado o etanol proveniente da cana-de-açúcar como um biocombustível avançado, que reduz a emissão de dióxido de carbono em 61% comparado à gasolina. A EPA é uma agência federal do governo dos EUA, com status de Ministério, que cuida da proteção do meio ambiente. Este anúncio reveste-se de um caráter político de grande importância se tomarmos em conta que o próprio etanol de milho reduz tais emissões em apenas 21% quando comparado à gasolina. Mais ainda, a tarifa de US$ 0.54 por galão mais 2% ad valorem que os EUA impõem às importações de etanol combustível anidro originadas do Brasil expira em dezembro do ano corrente. Discussões no Congresso para debater sobre a extensão de tal tarifa terão lugar no decorrer deste ano e o anúncio da EPA certamente vai ter muita influência nos debates. Este foi um resultado positivo de forte trabalho empreendido pela UNICA, inclusive por seu escritório de representação nos EUA, confrontando com poderosos lobbies locais, tanto dos produtores de milho como da indústria de produção de etanol. Vamos acompanhar nos próximos meses a evolução deste importante assunto para a indústria brasileira do etanol combustível.
Como afirmado inicialmente, tais anúncios tem relevância para a futura e tão esperada transformação do etanol combustível em uma commodity, negociável com todos os instrumentos de base contratual e de gestão de risco, características marcantes de qualquer commodity, não só as agrícolas. Mas não vamos nos precipitar pensando que estes dois fatos concretos vão ter o poder de uma varinha mágica e da noite para o dia fazer global um produto que ainda está em sua primeira infância em termos de comércio mundial. Aqui mesmo no Brasil, para aumentarmos o volume de etanol combustível exportável necessitamos de muitos anos de trabalho, de pesados investimentos tanto na produção como na infra-estrutura, para atingirmos números representativos no comércio internacional. Até lá o mercado interno vai ser o destino natural de nossa produção e o mercado de exportação apenas um instrumento regulador de preços para o mercado local. O caminho está aberto mas a jornada é longa e passa pela evolução do plantio de cana-de-açúcar e produção massiva de etanol em outros Países e Continentes.
Plágio é crime e está previsto no artigo 184 do código penal. Conheça a Lei 9610.













8 Comentários para "ETANOL – Paulo Costa"
O segmento está passando por mudanças tão intensas que é difícil acompanhar em tempo real. Esse texto do Paulo, traz as informações necessárias de forma esclarecedora e objetiva. Muito Bom!
Altamente explicativo e ponderado o artigo de Paulo Costa sobre os últimos movimentos no mercado de etanol. Parabéns.
Uma análise própria de quem entende e conhece como poucos os meandros do mercado de etanol e sabe abordar com propriedade aspectos sensíveis do setor. Leitura obrigatória.
costa,
estou acompanhando o investimento da PETROBRAS na metade norte do rio grande do sul onde a empresa pretende num projeto com produtores locais, multiplicar por 40 a área plantada de cana-de-açucar, chegando a aproximadamente 1.000.000 de hectares. em isso ocorrendo o rio grande ficaria tao somente atras de sao paulo na produçao de cana/etanol.
Sr. Antonio Rodrigues, grato por seu comentário. Na verdade o Rio Grande do Sul está encontrando um caminho interessante para o plantio da cana-de-açúcar. Tudo começou com a instalação da Braskem em Triunfo/RS para produção do “plástico verde”. Em um post futuro vamos falar de outros usos de etanol. O senhor é gaucho?
Paulo,
Muito atualizado e elucidativo o artigo.
A Cosan após ter se endividado com empréstimos do BNDEs e ter acumulado uma dívida de 2,5 bilhões de dólares, aparece na mídia como a grande empresa nacional formando uma joint venture com um grande grupo multinacional, o que parece não ser o que realmente aconteceu, uma empresa enterrada em dívidas absorvida por uma grupo que tem como sua estratégia de longo prazo entrar no mercado de combustíveis renováveis. Este exemplo, de endividamento excessivo através do BNDES, tem acontecido em inúmeras áreas em que o Brasil ‘parece ser competitivo’, tal como a Pecuária de Corte e a Celulose.
Sr. Eduardo, grato pela leitura e seu comentário. Nós analisamos a união das empresas apenas sob o ponto de vista conceitual e de importância para o setor. O senhor tem razão no que toca ao envolvimento do BNDES em alguns setores estratégicos da economia brasileira, provavelmente dentro de um plano de ação estabelecido pelo Governo através do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Atenciosamente,
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