16/fevereiro/2010 - terça-feira
Coluna Semanal
Etanol – Livre Mercado e Regulação (I)
No mercado nacional de etanol combustível tivemos a implantação, em 1º de fevereiro, da redução da mistura de etanol anidro na gasolina, de 25 para 20 por cento, e com validade – pelo menos – até 30 de abril. Esta é a típica situação em que só há perdedores. Perde o Governo, que se vê forçado a reconhecer que não há políticas públicas a reger o mercado de etanol, hoje parte mais significativa do que a própria gasolina na matriz energética da movimentação de veículos leves. Perde a indústria canavieira que tem sua reputação marcada por não saber administrar estoques e ter provisão suficiente para o fornecimento de etanol na entressafra, tanto o hidratado para os carros flex como o anidro para mistura com a gasolina. Perde o consumidor, que se vê praticamente sem a opção do uso do etanol hidratado pelo seu alto preço e ainda com casos esporádicos de falta da gasolina em alguns locais por problemas de logística em seguida à mudança.
Nesta safra o setor sucro-alcooleiro tem a alegação válida de que chuvas extemporâneas impediram o processamento de toda a cana que estava disponível e que restou em pé para moagem – com grande queda na produtividade – na safra vindoura. Mas a questão é mais complexa do que somente as chuvas. Qualquer problema, na economia e na vida, nunca tem uma única causa, mas usualmente uma multiplicidade ou combinação de vários fatores. A situação a que chegamos nesta entressafra tem origem também na forma com que a indústria canavieira entrou neste ano: caixa negativo, falta de crédito, mercado de baixos preços e perspectiva de queda nas exportações de etanol. Isto tudo conjugado com uma expectativa de bons preços para o açúcar, inspirados pela grande quebra de safra projetada para a Índia, segundo maior produtor e exportador mundial. O Governo até que fez sua parte, colocando à disposição da indústria uma linha de crédito, via BNDES/BB, para financiar a armazenagem de etanol. Mas os termos e as condicionantes para o acesso a este crédito eram, na altura, inacessíveis para o setor produtivo. O resultado todos sabem: preços absurdamente baixos, em certas regiões menos da metade do valor da gasolina, até o etanol se tornar competitivo em 24 Estados brasileiros. Neste ponto é que entram Inverno e Primavera extremamente chuvosos, deteriorando o rendimento da cana-de-açúcar e diminuindo o número de dias de moagem. Tudo combinando para os estoques caírem e os preços explodirem até o ponto em que chegamos hoje, onde apenas o Estado do Mato Grosso – verdadeira ironia – ter etanol mais vantajoso que a gasolina.

Etanol em desvantagem na bomba
A mais visível consequência destes acontecimentos é que vamos ver – inevitavelmente – uma forte participação do Governo em termos de regulação do mercado de etanol combustível. Isto não é nenhuma novidade para quem acompanha e vive este jovem mercado. Logo que houve a primeira grande falta de etanol na era do carro flex e como agora, faltou produto e os preços subiram, o Governo brasileiro já manifestou veementemente sua intenção de intervir neste mercado uma vez que o etanol já começava a ser parte fundamental na matriz energética do País. Os Ministérios com um viés mais intervencionista cogitavam de ver a Petrobras mais ativa na produção e criar um teto para os preços do etanol. Afinal, perguntava-se, se a gasolina e o diesel têm preços controlados, por que não o etanol combustível? O mesmo se indaga agora, mas com ações concretas já se desenhando.
Uma primeira providência surgiu com a emissão pela ANP da Resolução 43/09, publicada em 24 de dezembro de 2009, que cria uma nova estrutura de negociação do combustível, com o surgimento da figura da Empresa Comercializadora de Etanol e a adoção de nova sistemática tributária. Esta Resolução, por ter raízes mais profundas do que se enxerga, está sendo estudada por todos os envolvidos. O importante é que vai ser apressada a regulação deste mercado e o setor produtivo deve acelerar sua participação nos debates se quiser ter possibilidades de proteger seus interesses de quem até agora viveu em um mercado absolutamente livre, onde o único condicionante para os preços era o teto estabelecido pelo valor administrado da gasolina.
Plágio é crime e está previsto no artigo 184 do código penal. Conheça a Lei 9610.













2 Comentários para "ETANOL – Paulo Costa"
São entraves ao pleno desenvolvimento do etanol:
a) Desabobalhamento geral urgente sobre a panacéia dos motores FLEX. Comprou um carro flex? Então você está numa flex enrolation… enrolation… rebolation. Quem mandou você acreditar na Rede Bôbo?
b) Reduzir o passeio inútil do etanol. Curioso é que o povo não dá a mínima para esta despesa, de tão burro que é.
c) Descentralizar. As coisas seriam bem diferentes se fosse permitido aos “pequenos” venderem a sua produção ao mercado.
d) A mistura deveria limitar-se à necessidade de etanol anidro suficiente para cumprir seu papel de padronizador de detonação da gasolina, seja cinco, oito ou dez por cento. O restante deveria ser oferecido na forma de E85 como fazem os americanos, com motores desenvolvidos para tal, um combustivel de octanagem maior.
e) O milho safrinha no Centro Oeste é cultivado por razões agronômicas, razões técnicas. A conversão parcial tem etanol não deve ser analisada apenas sob o aspecto econômico e sim como mais um participante da matriz energética nacional.
Prezado sr. Heinen, muito interessantes alguns pontos levantados em seu comentário. Temos que lembrar apenas que os veículos biocombustíveis foram lançados em 2003. Há, portanto, muita coisa a ser feita, inclusive esta regulação do mercado, para evitar alguns problemas primários. Quanto à mistura do anidro à gasolina o senhor levanta uma comparação ao uso nos EUA que é uma idéia a ser estudada. Obrigado por sua leitura e suas opiniões.
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