09/março/2010 - terça-feira
Coluna Semanal
Etanol – Mudança de fatos e expectativas
Pela primeira vez na história da moagem de cana-de-açúcar no Centro-Sul do Brasil o setor produtivo está emendando uma safra em outra. Tem-se notícia de que cerca de 40 usinas ou destilarias não pararam de moer a safra a se findar enquanto sete usinas já iniciaram produção da safra nova. Não se sabe bem se safra nova de verdade ou cana que ficou “em pé” em consequência das chuvas que impediram o corte no momento mais adequado. Este fato tem duas vertentes opostas: se de um lado sabe-se que o rendimento, tanto da cana não cortada como daquela em início de safra, é bastante abaixo da média anual, por outro se elimina o risco que parecia iminente de um desabastecimento dos mercados internos de açúcar e etanol. Apesar da abrupta queda das cotações nas Bolsas de Futuros de açúcar em NY e Londres, os preços dos produtos no mercado brasileiro continuam bastante atraentes e refletem boas margens à indústria. Um ponto a ser levado em consideração, apesar de passar quase despercebido pelos analistas que apenas olham a questão de oferta e demanda de açúcar e álcool no mercado mundial, é o fato que muitas destas indústrias não têm se submetido ao necessário trabalho de manutenção preventiva e corretiva, usual na entressafra. Muitas vezes este descuido acaba por causar transtornos operacionais em época de pleno corte da cana, com graves consequências logísticas.
A repercussão comercial deste fato novo é que os preços de etanol na indústria começaram a cair. Esta queda ainda não chegou integralmente até a bomba dos postos mas em alguns Estados, inclusive e particularmente em São Paulo, já há locais onde se volta a abastecer veículos com etanol hidratado a preços mais competitivos que a gasolina. A simples percepção de que o início de moagem está fortemente antecipado e condições climáticas relativamente secas para esta época do ano, fazem com que a dinâmica do mercado se altere da noite para o dia.

Moagem de cana emenda as safras
Ao mesmo tempo a ANFAVEA anuncia que esta semana foi produzido o carro flexfuel número 10 milhões. Não é preciso fazer contas para ter a confirmação que todos sabemos: a frota brasileira de flex é mais do suficiente para absorver toda a nossa produção de etanol. Tudo é uma questão de preço e logística. Basta lembrarmos do que aconteceu nesta safra passada, quando chegamos ao ponto de ter vinte e quatro Estados consumindo preferencialmente etanol, consequentemente à queda enorme de preços nos primeiros meses da safra. Se lembrarmos que a geografia de produção do etanol brasileiro vai se alterando rapidamente em direção aos Estados do Centro Oeste, podemos perceber que o País vai se arrumando cada vez mais no sentido de ser um produtor de etanol para consumo doméstico. Se olharmos em longo prazo, tendo no horizonte um grande excedente de petróleo oriundo da camada do pré-sal, não é difícil imaginar uma situação em que o Brasil se torne um grande exportador de combustível fóssil e usuário do combustível renovável (acresça-se ao etanol o nosso biodiesel!). O meio ambiente vai agradecer e a economia do país também. Muito mais barato e inteligente exportar um produto que já nasce no porto do que transportá-lo pela imensidão de nosso Brasil para ser exportado.
Estamos testemunhando neste momento o reaparecimento no setor de açúcar e álcool do Brasil de uma síndrome que ataca de forma recorrente todo o agronegócio e que afeta desde o produtor rural até o consumidor no mais longínquo canto do globo. As características deste mal são as pessoas acharem que quando as cotações de um produto, seja no mercado físico ou de futuros, alteram seu rumo de ascensão ou queda, o processo nunca vai ser revertido. Se o mercado sobe, não vai mais parar de subir, se desce, vai parar no fundo do poço! No momento específico que estamos vivendo no setor sucroalcooleiro esta situação pode até ser justificada pelo fato de que as cotações da Bolsa de Futuros de açúcar de NY perderam 25% em apenas 25 pregões (posição Maio’10) e os valores de etanol no mercado interno estão cedendo em um momento em que normalmente deveriam estar firmes. Deve-se lembrar, no entanto, que os mercados são cíclicos e dependentes de um número enorme de variáveis, a grande maioria fora do controle de qualquer um. O importante é saber administrar os momentos de subida e descida e ter uma estratégia coerente, sem pânico. Vamos reler nosso artigo passado. A estrutura dos participantes neste mercado, na safra que se avizinha, vai ser diferente. Claro que ninguém faz milagres de um momento para outro – por mais organizado que seja – mas podemos ter a expectativa de que a administração de estoques e o equilíbrio nos movimentos de venda, suportado por empresas produtoras com posição financeira sólida, já vão começar a aparecer.
Plágio é crime e está previsto no artigo 184 do código penal. Conheça a Lei 9610.
















4 Comentários para "ETANOL – Paulo Costa"
Como sempre um texto claro, lúcido e coerente com a realidade economica do país. Parabéns mais uma vez!
Bem alertado seu artigo no que tange a problemática da manutenção das unidades produtoras no momento da entresafra. E, sem dúvida, num mercado sanzonal em que muitas variaveis estão fora do alcance, é importante ter estratégias bem alinhadas.
Prezado Paulo,
Parabéns pelas matérias e colocações a respeito do etanol. Curiosamente, na nossa região (São José do Rio Preto/Monte Aprazível-SP), os primeiros postos a ofertarem etanol a R$1,49/lt na semana passada, foram de bandeira Shell. Isso tem alguma relação com a fusão Cosan-Shell ou é força do mercado? Att, Claudio Pimenta.
Agradeço a leitura e os comentários.
1. sra. Elisa – sei que está sempre atenta e fico grato pela colocação gentil;
2. srta. Renata – sua experiência no setor justifica seus comentários. São pontos que nem sempre são observados. Em alguns anos a necessidade de caixa pela indústria fez com que se abandonasse qualquer estratégia comercial. A ordem era vender a qualquer preço para liquidar as contas mais urgentes. Esperamos que isto vá se mudar rapidamente;
3. sr. Cláudio – obrigado pela sua observação. Notei o mesmo aqui em São Paulo. Quero crer que seja uma feliz coincidencia, pois parece cedo para a fusão já ter estes resultados (na verdade os postos Esso deveriam ter sido os primeiros pois já pertencem à Cosan há mais de um ano). O principal motivo pode estar relacionado com o fato de que cada distribuidor tem uma política comercial diferente. Neste caso o mais provável é que a Shell estava com estoques mais baixos de etanol ainda caro e já está conseguindo repassar para a bomba a queda nos preços do etanol “novo” adquirido mais recentemente.
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