Bayer

07/setembro/2010 - terça-feira

Coluna Semanal

Banner

ETANOL – Paulo Costa

Etanol – “The Economist” – Um artigo

A prestigiosa revista semanal britânica The Economist traz um interessante artigo sobre uma questão conceitual que envolve o futuro do etanol brasileiro. Vamos fugir aqui do padrão de nossos textos para fazer uma tradução editada, parcial e resumida do artigo. A ideia é mostrarmos a nossos leitores o que se escreve e se lê no exterior a respeito de nosso etanol. Obviamente a matéria foi escrita aqui no Brasil, inclusive com entrevistas, algumas que a imprensa local não publica. É fácil notar, para aqueles que acompanham o assunto, que muitas incorreções são publicadas. Mas o fato é que as conclusões a que as pessoas chegam são formadas pela informação, muito dela, incorreta. Aqui vai parte do texto, entre aspas, para proteger o direito do autor, sempre lembrando que é uma tradução livre:

“O açúcar tem sido produzido no Brasil por mais de 500 anos e hoje é de longe o país maior exportador do mesmo. Mas açúcar também forma o núcleo de um novo complexo agro-industrial e de energia renovável. Biocombustíveis, majoritariamente derivados de açúcar, são a mais importante fonte de energia depois do petróleo. Para uma unidade de energia, a produção e uso de etanol a partir do açúcar gera apenas dois quintos das emissões de carbono quando comparada aos derivados do petróleo, e metade da gerada pelo etanol derivado do milho, de acordo com as conclusões da Agencia de Proteção do Meio-Ambiente dos Estados Unidos. E os plásticos verdes estão prontos para se mudar dos laboratórios de pesquisas para as lojas com o lançamento de garrafas pet para refrigerantes.

Revista semanal britânica

Ainda assim as indústrias estão lutando para transformar todos estes benefícios econômicos e ambientais em receitas confiáveis. Por conta disto culpa o governo e argumenta que deve se beneficiar de um regime regulatório mais favorável. Mas este segmento industrial deveria prestar mais atenção. O governo, por sua vez, acusa os produtores de quererem ter o melhor dos dois mundos: da agricultura e da energia. Ele pode fazer a vida da indústria ainda mais difícil do que ela já é!

Desde que o Brasil abandonou os controles nos preços e produção de cana-de-açúcar, duas décadas atrás, a safra aumentou duas vezes e meia. Quase toda a produção vem de extensas e mecanizadas fazendas na região Centro-Sul – centenas de milhas distantes da Floresta Amazônica. A produção de etanol mais do que dobrou desde 2002, graças ao desenvolvimento dos motores flex para os automóveis, capazes de rodar com gasolina ou etanol, sem distinção. Mais da metade da frota rodante do país hoje é movida por carros flex-fuel. Além disto, o governo determina que a gasolina deva conter uma mistura de três ou quatro partes para um de etanol (nota do Agroblogueiro – informação imprecisa: a variação pode ser de 20 a 25% de etanol na gasolina).

Por conta de seus benefícios ambientais, o etanol a partir da cana-de-açúcar tem o potencial de ser uma indústria global. Por isto que a Royal Dutch Shell criou uma joint venture de 12 bilhões de dólares com a Cosan, o maior produtor brasileiro de açúcar e etanol. A nova associação, assinada em 25 de agosto, reúne os postos de combustíveis das duas empresas no Brasil, em um total de 4.500 unidades. A Shell também está contribuindo com US$ 1.6 bilhões em cash e sua participação em empresas de pesquisas de biocombustíveis, enquanto a Cosan entra com suas 23 usinas incluindo a Costa Pinto.

No entanto, enquanto o Brasil exporta 70% de sua produção de açúcar, 75% do etanol ainda são vendidos no mercado doméstico (nota do Agroblogueiro – outra informação errônea: os percentuais referidos são de aproximadamente 65% para açúcar e 93% para etanol). Isto ocorre principalmente porque os Estados Unidos e a Europa olham para o etanol como um produto agrícola e protegem seus próprios agricultores (principalmente de etanol de milho).

Para transformar este potencial em realidade é necessário grande investimento de capital. Exportações em larga escala dependem de alcooldutos e de um porto. Três de cada quatro unidades de produção não estão conectadas às linhas de transmissão de eletricidade. E muitas empresas tomaram largos empréstimos para expansão justamente às vésperas da recessão que temporariamente derrubou os preços em 2008-09. O resultado foi uma suave onde de consolidação: 87 das 438 usinas do Centro-Sul do Brasil mudaram de mãos no último ano, diz a Unica. Ainda assim, os cinco maiores produtores respondem por meramente um quinto da produção total.

Até que um mercado global de etanol se forme os produtores brasileiros estarão desconfortavelmente dependentes das vendas do mercado doméstico e da Petrobras, o gigante nacional do petróleo. A empresa é ao mesmo tempo seu principal cliente (pois compra etanol anidro para misturar com a gasolina) e seu principal concorrente (porque os produtos do petróleo competem com os biocombustíveis da cana). Além disto, é – ao mesmo tempo – o maior produtor de etanol.

A gente ligada ao açúcar reclama que, embora o preço de etanol aumente ou diminua com a demanda mundial por açúcar, os preços dos derivados de petróleo não se ajustam tão rapidamente às mudanças dos preços do petróleo. Ela também pensa que na área do meio-ambiente o etanol deveria ter imposição tarifária menor que o óleo diesel, como ocorre em São Paulo mas não em outros Estados. Também lamentam que a falta de regulação impede sua expansão.

Estas reclamações encontram poucos amigos em Brasília. Autoridades rebatem dizendo que quando os preços de açúcar estão altos, como ocorre neste momento, as usinas desviam a cana da produção de etanol. Para assegurar fornecimento estável, o etanol deveria ser regulamentado como um combustível pela Agência Nacional do Petróleo, diz uma representante do staff do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ela acusa a indústria de querer obter todas as vantagens de ser tratada como uma produtora de energia, mas nenhuma de suas dificuldades.

Dois pontos se sobrepõem a este debate. O primeiro é que as novas descobertas do pré-sal colocam o Brasil como um grande exportador de petróleo. A indústria da cana alega que isto vai fazer a Petrobras ainda mais poderosa e fez com que o Presidente Lula esquecesse seu entusiasmo anterior por biocombustíveis. Esta acusação parece injusta: o governo insiste que os biocombustíveis devem reter sua participação atual no contexto da matriz energética brasileira. Em segundo lugar, se as pesquisas estiverem corretas, as eleições presidenciais de outubro serão vencidas por Dilma Rousseff, antiga Ministra da Casa Civil e de Minas e Energia de Lula. Ela acredita ainda mais fortemente do que ele em planejamento estatal e controle da indústria de energia. Em contraste, a indústria de açúcar prefere seguir os sinais do mercado e decidir por si se a cana deve ser cristalizada ou destilada. Afinal, argumenta a indústria, foi apenas quando o Estado afrouxou seu controle que a indústria de etanol tornou-se uma realidade global.”

É PROIBIDA A REPRODUÇÃO DESTE ARTIGO EM QUALQUER MEIO DE COMUNICAÇÃO, ELETRÔNICO OU IMPRESSO, SEM A CITAÇÃO DAS DEVIDAS FONTES (www.agroblog.com.br + Autor).
Plágio é crime e está previsto no artigo 184 do código penal. Conheça a Lei 9610.
2 Comentários para "ETANOL – Paulo Costa"
Jose Portinho Junior disse:
10/09/2010

Creio que não compromete o erro dos destinos do produto. Os demais pontos são a leitura do setor mesmo. Quanto a mistura da gasolina está certo o publicado pela revista: A primeira dividiu a Gasolina C em 4 partes e a segunda em 5 partes; 3 partes de gasolina para uma de etanol (75%-25%) e quatro partes de gasolina (80%-20%), foi só uma maneira de se expressar diferente da nossa.

Paulo Costa disse:
11/09/2010

Prezado senhor Portinho, grato por sua visita e comentário. Nos EUA a mistura obrigatória é de 10%, em muitos Estados. No Brasil ela pode variar de 20 a 25% – 1% mais ou menos, de acordo com disposição governamental. O normal é termos um quarto de nossa gasolina substituida por álcool anidro. Em situações em que se pode antecipar falta de produto na entressafra o governo, através da ANP, pode baixar esta mistura para 20%. Atenciosamente,

Deixe um Comentário!
Nome:  *obrigatório
E-mail:  *obrigatório (não publicado)
Mensagem: