30/novembro/2010 - terça-feira
Coluna Semanal
Olho do furacão?
Recuperação aos preços da soja na última semana. Sem novidades significativas, a soja consolida as perdas recentes em grande estilo. As cotações voltaram a encontrar suporte em fatores intrínsecos, com destaque a demanda e as preocupações com a escassez de umidade no sul da América do Sul, os quais permitiram ofuscar o quadro externo extremamente conturbado e volátil.
Após período ausente, a China retornou as compras no mercado internacional, com o anúncio oficial de vendas expressivas nos EUA, bem como reportes comerciais de vendas também na América do Sul. Embora o desconforto gerado pelas políticas contracionistas adotadas pelo governo chinês, com o objetivo principal de conter a inflação, conforme abordamos na semana anterior, o impacto destas ações sobre a demanda por commodities alimentares tende a ser muito limitado e, qualquer eventual retração no fluxo de importações tende a ser estritamente temporário. Nesta semana, pela primeira vez em 2010, a China leiloará 300 mil tons de estoques de soja, acompanhado por volumes expressivos de grãos como trigo, milho e arroz. É justamente esta movimentação que reflete a forma de atuação do governo chinês: garantir a oferta interna.
Com a demanda firme nos EUA, já não unicamente evidente pelas vendas, mas também nos embarques, o mercado trabalha com a expectativa de novas revisões nos estoques finais norte-americanos 2010/11 em relação aos atuais 5 mi. tons. Conjugando a expectativa de aumento nas exportações e processamento interno, os estoques poderiam recuar para níveis entre 4,0 e 4,3 mi. tons, isso é claro, sem uma revisão na estimativa de produtividade nos EUA (esta ainda poderia ser revista para cima). Esta percepção atua como fator primordial de suporte ao mercado neste momento, especialmente em função da incerteza com relação a safra sul-americana, já que, qualquer retração na oferta por aqui, intensificaria ainda mais a briga por área no mercado norte-americano 2011.
Além da demanda, outro aspecto que contribuíra como suporte aos preços é a questão climática na Argentina. Embora fato velho (portanto já parcialmente precificados pelo mercado), a escassez de umidade passa a constituir-se um fator problemático aos hermanos com atraso no plantio e desenvolvimento inicial das lavouras. Embora chuvas no final de semana, os modelos indicam a continuidade de um quadro de tempo seco sobre a maior parte da região produtora do país nos próximos 10 dias, situação que demanda atenção.
Se, de um lado, o quadro fundamental demonstrou-se positivo, de outro a conjuntura externa, vai de mal a pior. A conjugação da crise fiscal Européia com as desavenças entre Coréias, mantiveram os traders cautelosos, quadro que tende a continuar no curto prazo. Na prática, o movimento reflete essencialmente a fuga para a segurança, o que, naturalmente atua como fator de suporte ao dólar perante as principais moedas globais. Embora, como acima referido, o impacto limitado das políticas chinesas, a percepção do mercado de que o governo de Hu Jintao possa adotar medidas mais sérias te o final do ano, especialmente a elevação dos juros básicos da economia são fatores perturbadores neste momento.
Mas e com este mais do mesmo, o que esperar? A nebulosidade é espessa ao olhar adiante. Sem sombra de dúvida, a conjuntura fundamental evidencia cada vez mais, o potencial para um suporte importante dos preços nos atuais patamares tanto no curto quando médio prazo, porém as incertezas no quadro externo sugerem ainda uma tônica mais cautelosa, especialmente em função do elevado saldo comprado de fundos neste mercado em período de final de ano calendário. Assim sendo, ainda não há conforto suficiente para trabalhar com a percepção de que o pior já passou neste momento, o que fica evidente especialmente aos fãs da análise técnica. Espere intensa volatilidade para as próximas sessões e, esteja atento principalmente ao cenário macro: é neste front em que os perigos são maiores.
Plágio é crime e está previsto no artigo 184 do código penal. Conheça a Lei 9610.














2 Comentários para "SOJA – Ricardo Lorenzet"
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